Viver fora do Brasil nunca foi apenas sobre trocar de país. Foi, desde o início, sobre trocar de pele. Lisboa ensinou-me isso aos poucos, com a paciência branda de quem sabe esperar o nosso tempo interno. Quando cheguei, tudo parecia simultaneamente vasto e íntimo — como se cada rua estreita tivesse uma história para me contar, e cada pessoa que passava carregasse um pedaço de saudade semelhante ao meu.
Descobrir-me em Lisboa foi reaprender ritmos: o silêncio que mora entre uma estação de metro e outra, o cheiro do café forte nas padarias, o Fado que insiste em tocar dentro de nós mesmo quando não conhecemos a letra. Viver fora, percebi, não é um processo linear. Alguns dias somos gigantes; noutros, pequenos demais. Mas em todos, existe uma constância: crescemos.
Foi aqui que compreendi o amor de um jeito diferente. Um amor que não depende de território, mas de presença — mesmo que essa presença, às vezes, seja apenas a nossa própria. Lisboa ensinou-me a ser minha companhia, a valorizar rotinas pequenas, a caminhar sem destino só para sentir a cidade respirar comigo.
E, talvez o mais importante, foi aqui que percebi que o amor não precisa ser corrido. Ele pode ser tranquilo, maduro, e aparecer nos lugares menos óbvios: num amigo novo, num romance inesperado, ou num reencontro com partes de mim que eu tinha esquecido no Brasil.
Entre Lisboa e o amor, aprendi que não existe distância capaz de diminuir aquilo que é verdadeiro. E que viver fora não nos tira raízes — apenas faz com que elas encontrem novos solos para crescer.
